Mudei para a cidadela aos dez anos de idade. Achei tudo tão diferente, mas encantei-me com o verde das árvores centenárias que saltitavam nas praças, com o silencioso rio que corria calmo nas pedras, com o carinho dos avós que me mimavam com sua sabedoria, própria de uma vida bem vivida. Foi com ele que aprendi que todas as pessoas que habitam essa terra de nosso Deus são iguais e merecem todo meu respeito, era sábio o meu vovô Zizito, mas tão inocente!
Certa vez, esperávamos minha avó na entrada do antigo INPS, prédio que ficava logo após a casa de saúde e que hoje cedeu espaço para uma clínica de estética, então, na sua elegância cumprimentou uma senhora que passava pela rua com um singelo "Bom Dia", a senhora da sociedade virou o rosto grosseiramente e nada respondeu. Minha irmã e eu, crianças naquela época, perguntamos: "Vô, por que Dona Fulana não lhe respondeu?" Ele na sua altivez nos disse: "Meninas, manda a boa educação que ao vermos uma pessoa conhecida, a cumprimentemos, desejando para ela um bom dia, mas se ela acha que é melhor que eu e optou por não responder, o que temos que ter não é raiva dela, mas sim pena, porque mostra assim que é uma pessoa muito infeliz."
Aquele dia achei ter aprendido uma grande lição e assim venho seguindo por minha vida, mas ontem numa festa para crianças de aproximadamente dez anos vi a história se repetir, só que desta vez comigo. Nessa aldeia as coisas não mudam: clínicas de estética se multiplicam assustadoramente, a população corre aos cursos universitários, todos têm casas de teto rebaixado, televisões de LCD sorrateiramente penetram em todas as salas e, a Internet liga a cidadela ao grande mundo. Nossa, quanta evolução! Dia desses me disseram com orgulho "Cresceu o nosso IDH!", e eu pensei estamos evoluindo. Ledo engano!
O "ter" continua quase insuperável: casa, carro, objetos... Só que agora o "ser" o supera em todos os limites: fazer lipoaspiração é regra não exceção, os anabolizantes na academia criam músculos jamais pensados outrora, ser visto no jornal ao lado de políticos venerados é uma obrigação... Nossa, nunca vi tanta importância pro "Ser"!
Nesse instante, volto à festa das crianças, quando a música dizia "É preciso saber viver!". Confesso que não sei viver nessa cidadela! Ainda acredito que é regra mínima da boa educação dizer "Boa Noite", mesmo àqueles que não conheço de fato. Um dia aprendi que todas as pessoas são iguais e portanto merecem respeito. Ainda creio profundamente nisso e acho que no dia em que deixar de crer, não tenho mais razão para viver. Não posso recorrer à drogas controladas para dormir depois de uma noite dessas, porque o meu estômago ainda está embrulhado e nem sequer consegui almoçar hoje.
Claro que adoraria ter uma tv de LCD e provavelmente não demoro a adquiri-la. Lipoaspiração, tenho receio, mas um dia ainda farei drenagem linfática para experimentar os resultados. Minha casa, talvez a projete um dia e sabiamente rebaixarei seu teto, porque amo a beleza. Roupas caras e bonitas são por mim muito apreciadas, mas nada disso soa mais importante do que SER uma pessoa melhor, que respeita os outros, não para cumprir um rito social, mas simplesmente porque acredito nisso.
Hoje acordei com vontade de partir de vez da cidadela, quem sabe encontro em outro lugar pessoas que encarem a vida como eu? Vou pensar seriamente nessa possibilidade...