quarta-feira, 11 de maio de 2011

ESTRANHA SENSAÇÃO

          O inverno começa a mostrar-se esse ano, o dia está nublado, a temperatura apenas amena, uma neblina suave deu o ar de sua graça na tarde de ontem, a noite não permitiu cobertores, apenas uma colcha um pouco mais grossa, os habitantes da cidadela ensaiam suas primeiras roupas cobertas.
          Estranho como gosto de céu nublado, a neblina e o frio que impele a todos uma atitude mais sóbria. Gosto do tom de mistério que a estação traz, sempre ao cair da noite, portas e janelas fechadas, meias e cachecóis acompanhados do chá das vinte e três horas e de uns poucos biscoitinhos, que incentivam o sono.
          Nessa época sinto mais energia  e, quase sempre uma vontade imensa de ganhar a estrada para cada vez mais longe. Esta ânsia que tenho pelo desconhecido, como se em algum lugar, algo ou alguém estivesse a minha espera, coisa que jamais soube explicar.   
          Quero sentir o vento gélido aquecer minha alma, a neblina nua vestir  meu corpo, a noite escura iluminar meus passos,  para que eu possa desfrutar de cada instante da nova estação.

sábado, 7 de maio de 2011

MORRER

           Tenho sonhado com meus entes queridos que se foram nas últimas noites. Sonhos agradáveis, lembranças doces. Fico pensando  quando será a minha partida. Não com pensamentos fúnebres ou mórbidos, apenas pensando.
        No trabalho, até aqueles que me detestam, provavelmente irão dizer: "Apesar dos pesares, ela era competente!".  Os meus amigos virtuais sentirão falta dos emails, afinal encho suas caixas diariamente. Os meus antigos amores, dirão: "Nossa, faleceu? Uma mulher com opiniões demais na minha opinião, mas era interessante". Meus amigos verdadeiros, irão pensar na hora: "Como está a Tatá? Tenho que encontrá-la e ficar sempre com ela nesse momento!" Ops, Tatá é a minha irmã e, ela não fica bem sem mim! Minha mãe vai chorar, afinal ela me ama, do seu jeitinho torto, mas para mim é o bastante.
          Bom, conforme combinei com Tatá, não haverá velório, nem enterro, apenas serei sepultada sem alarde. Dias mais tarde, assim que for possível, minha irmã e meus amigos leais farão o seguinte: na mesa bem colocada, um bom vinho e queijos, a música será bossa e rock nacional dos anos 80 e 90, a conversa vai rolar solta sobre como eu era chata em algumas ocasiões, engraçada e bem humorada em outras, como eu falava sem parar e muitas vezes monopolizava o assunto, a forma como eu era sensível e via o mundo sempre colorido, apesar daquela nuvenzinha cinza.
          Vão se lembrar dos nossos papos, viagens e como eu gostava de ser uma turista de carteirinha, mas também lembrarão das brigas, afinal não vim no mundo a passeio, e rirão de todas as minhas confusões do passado.
          A certa altura o vinho vai tomar conta e, a pauta será: "Uma coisa não podemos negar, se a Rose exagerava no vinho, aí o papo vertia sacanagem, como era safada!" Muitos risos, quando de repente  se darão conta que eu não estou ali, lágrimas vão rolar e muitas, afinal os conheço bem, assim a celebração estará completa, e minha vida não terá sido em vão. Se tive amigos, vivi.

domingo, 24 de abril de 2011

COELHINHA DA PÁSCOA

Hoje, domingo de Páscoa, mais uma vez recebi a visita da Coelhinha da Páscoa. Durante todos os anos da minha vida, ela não deixou de aparecer. Minha irmã e eu desde pequenas esperávamos ansiosas por ela. Agora, no auge de seus sessenta e quatro anos, ela trouxe um lindo ovo para gente: um Ferrero Rocher.
Ontem, ela na hora do almoço disse:
-Este ano, não haverá chocolate, afinal vocês disseram que eu não deveria gastar dinheiro com isso.
Bobinha ela, claro que eu sabia que meu chocolate já estava comprado, aí retruquei:
-Ah, momãe! Quero pelo menos um bombonzinho! - a chamo de momãe, assim ela se tornou a única em todo mundo.
Inocente, respondeu-me:
-Você acha que não comprei o chocolate de vocês? Bobinha você!
E riu carinhosamente, quando concluiu:
-Para mim vocês não vão crescer nunca! Sempre serão as minhas meninas!
Adorei receber mais uma vez a visita da minha coelhinha e não pensem que ela está velhinha não. Continua uma linda coelha, com os pelos e olhos castanhos escuros, saltitando pelo jardim, cheia de energia.
Obrigada, linda coelhinha! Serei para sempre sua menininha, aguardando o chocolate da Páscoa!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

SEM SABER


Ontem ouvi velhas canções e senti saudades. Estranho como roupas, sapatos, cheiros e sabores nos remetem ao passado. Lembrei dos meus avós e do meu pai, pessoas incríveis que fizeram parte da minha história. Aprendi muito nos anos que passamos juntos: vovô delicadamente fez de mim grande parte do que sou, vovó intempestivamente adoçou meu paladar e meu humor, papai responsabilizou-se pelo carinho que tive nessa vida, gestos tão simples e despretensiosos acalmavam minha alma inquieta.
Hoje me sinto privilegiada, meus passos seguem inseguros, mas não tenho medo. Sentimentos incríveis me mantém viva e cheia de esperança. Sigo sozinha pela estrada, às vezes ofegante, outras vezes, confesso, com enorme preguiça. Sou alguém disposta a aproveitar cada instante e guardar na memória tudo que me inspirou, mesmo que tenha sentido imensa dor.
Pouco antes de partir, me restará uma grande certeza, a de que vivi de acordo com minha consciência e jamais violentei a minha alma. Quando minha hora chegar, apenas fecharei os olhos e mais uma vez sem saber, dormirei...

sábado, 16 de abril de 2011

INVERNO EM ESPERA

Inverno que não chega,
Minha alma anseia em segredo
Pelo vento frio,
Que sopra da velha serra.
A noite insegura,
Ensaia a primeira neblina
No meu corpo um arrepio,
Se transforma em taciturna angústia.
Será que nesse inverno,
Uma chama quente anunciará
O prelúdio de um amor,
Que o tempo teima em não apagar...

sexta-feira, 8 de abril de 2011

PEQUENO POEMA


Bela tarde de música,

Ouço mágica canção,

Minha alma ensaia voo,

Num sublime refrão...

Viver coisa mais linda,

Apesar dos perigos,

Da tortuosa estrada,

Vou caminhando descalça,

Sentindo a poeira e as pedras do meu chão...

Dia desses crio asas,

E fujo de vez para a fantasia,

De ser importante,

Apesar de tão pequenina...

sábado, 12 de março de 2011

O FIM E O INÍCIO

      O Carnaval passou e com ele foi a timidez que inicia o ano, agora com as mangas arregaçadas nos damos conta de todo o trabalho que temos que realizar. A chuva que caiu lavou as reminiscências do ano que passou e ainda persiste até que nada sobre, são as águas de março, limpando as almas.
      O céu cinza e o vento que sopra sorrateiro instigam um sono no corpo neste sábado preguiçoso, que parece prelúdio do inverno que anuncia um novo tempo. O baú de compromissos está abarrotado: tarefas profissionais, cursos, leituras que estão por terminar, imposto de renda por fazer, checkup médico e, pesquisar os roteiros das viagens que pretendemos fazer.
      Planos e objetivos traçados que necessitam de ações concretas para se realizarem. E ainda temos as questões íntimas que precisam ser analisadas: o que queremos de fato, se almejamos mudar algo em nossa personalidade, quais as atitudes que devemos tomar para vivermos bem nossos relacionamentos com amores, amigos e família.
      Após a quarta-feira de cinzas, a fênix ressurge com seu ímpeto de vencer, estamos prontos então, com nossas amplas asas abertas, voando cada vez mais alto, apenas recomeçando...