sábado, 5 de novembro de 2011

MENINA TRISTE

Hoje estou mais calma. Nos últimos dias estive extremamente desconfortável. Uma quantidade de pensamentos estranhos me atormentaram. Acho que de certa forma, o dia de finados me afetou. Lembranças ruins vieram a tona. A morte que certeira levou meu pai há 12 anos atrás. Não que as pessoas não possam morrer, claro que isso faz parte da vida, mas penso sempre que se meu pai tivesse mudado o rumo de sua vida, quando eu tinha 10 anos, talvez ele tivesse sido feliz. O que me entristece é saber que ele não foi!
De uma certa forma o culpo pela falta de coragem. Naquela época o casamento deles tinha fracassado, eu vendo as minhas fotos de menina, sempre noto um ar de tristeza em meus olhos, os adultos não sabem, mas as crianças sentem e são atingidas pela relação ruim dos pais. Minha mãe era uma mulher bonita, mas incapaz de amar o meu pai. Ele adoeceu com o desamor. 
Ao invés de terminar e começar de novo, ele ficou na mesmice de tentar o impossível, ser feliz com uma mulher que estava tão imersa no seu profundo egoísmo que era incapaz de percebê-lo ou as filhas, que cresciam sozinhas no profundo silêncio das palavras não ditas.
Hoje olho para ela e me ressinto, penso que ela foi tão infeliz a toa, nos fez sofrer tanto e ainda se atormenta dia a dia. Uma doença eterna: insatisfação! Insatisfeita com a casa, com o salário, com a empregada, com a síndica, com  as filhas, enfim, com o mundo. Nada é bom o suficiente e jamais será! Às vezes me pego olhando para ela sentindo enorme pena!
Papai se foi, os anos se passaram, eu de certa forma, apesar dos traumas, sobrevivi. Ela continua agindo do mesmo jeito, afastando as pessoas cada vez mais. Concluí que ela é feliz sendo infeliz! 
De uma coisa tenho certeza, se pudesse dar um conselho ao meu pai, eu diria: "Saia hoje de casa, reconstrua a sua vida, se apaixone novamente, me dê irmãos, quero ter um pai feliz!" Quem sabe, se ele assim o fizesse, em minhas fotos de infância, não estaria presente em meus olhinhos negros, aquela imensa tristeza...

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

CHUVA

Chuva que cai lenta
Molhando os corpos
Umedecendo as almas
Menina bonita
Olhar sempre aflito
Numa busca incansável
Pelo amor desmedido
Chuva que cai devagar
Acalme esse coração
Que descompassado
Acha difícil esperar
Amanhã já é terça
E seu bem há de chegar
Chuva que cai miúda
Acalme esse fogo que queima
Essa pobre menina bonita
Sua vida é sempre espera
E ele há de chegar
Com seus pingos que caem devagar...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

QUASE CASTIGO

Hoje foi quase castigo
Estar tão perto e tão longe
A poucos centímetros
De um toque,
Ensaiá-lo 
E mesmo assim 
Desviar as mãos
E não tocá-lo então,
Aprendi a querer
E agora meu corpo
Não obedece,
Da próxima vez confesso
Não deixarei de beijá-lo
Se de mim estiver perto...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

VÍCIO


Preciso aprender a calar!
Minha boca acostumou a expressar minhas opiniões,
Meu rosto reflete o que vai em minh'alma: alegria, tristeza, ansiedade, satisfação...
Preciso aprender a domar o meu vício!
De dizer o que penso,
E expressar o que sinto!
Até porque o que ele me trouxe?
Apenas incompreensão!
E pra falar a verdade,
Acho que os outros tem razão!
Senhor, ajude a me curar dessa obsessão!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

PRAZER


Sensação de êxtase
Que invade o corpo
Vazio de pensamento
Estática de ações
Calmaria...
Sentidos entorpecidos
Reflexos incontroláveis
O corpo  não  obedece
Satisfação...
Eis a síntese do prazer
Que invade a alma
Deságua no corpo
E deixa o gosto
De mais querer...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

AMOR

Amor,
Que livre passeia de mão dadas na praça
Que beija suave com a brisa espalhando os cabelos
Que confessa segredos sussurrados no ouvido
Que abraça apertado sentindo o calor das almas...

Amor,
Que juntinho observa a cúpula da igrejinha
Que compartilha a bala de menta
Que dá amassos no banco do carro
Que canta acompanhando a canção do artista...

Amor,
Que se confessa apaixonado
Que faz planos pra eternidade
Que tem ciúmes do olhar do outro
Que ama, só ama e mais nada...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

PRISIONEIRA DE MIM

Meu terapeuta me disse que quando apareci em seu consultório há três anos atrás, nunca imaginou que eu pudesse evoluir tão rápido. Lembro-me daquele dia: uns 12 quilos a menos (hoje peso 60 kg), roupa preta, olhar sem vida, meu único sentimento era o medo e mais nada.
Fui nesse período me abrindo pro mundo, deixando a pessoa encarcerada dentro de mim mesma se libertar. Na verdade, eu mesma era prisioneira de mim. Desde menina, hoje olhando as fotos, se via uma tristeza oculta, inconscientemente meus pais me faziam acreditar que era responsável por tudo: "Ela é uma mocinha aos seis anos de idade!, Nossa filha é uma aluna exemplar!, Tome conta da sua irmã caçula!". Acreditei que a culpa por algo não ter dado certo era sempre minha.
Cheguei ao consultório sentindo o peso do mundo sobre mim. A culpa: pela morte do meu pai (ele enfartou!), pela difícil relação com a minha mãe (ela tem distemia!), pela profissão que não me rendia o que eu "achava que por tamanha inteligência" merecia (sou inteligente, mas não um gênio!), pelos relacionamentos que não davam certo (eu exigia demais de mim!), entre outras coisas.
Tinha convicção que não tinha dado certo e que a única responsável por isso era eu! E de certa forma tinha razão, porque acreditei que seria eu a cuidadora da família após a morte do papai, que era mesmo um fracasso de profissional, apesar de como professora ter experimentado todos os níveis de ensino, até em faculdade cheguei a dar aulas, que eu não era hábil para lidar com namoro. Desse jeito, adoeci.
Hoje, depois desses anos de terapia, descobri que meu pai faleceu em função do desgaste em seu organismo, que mamãe é minha mãe, mas isso não quer dizer que tenhamos afinidade, portanto evito embates e não me responsabilizo mais por suas ações, ainda tenho sobrecarga quanto às soluções dos problemas familiares, mas venho tentando dividi-los paulatinamente com minha irmã, no trabalho sou uma boa profissional por isso exijo respeito, estou namorando, ele é um cara muito legal, pela primeira vez estou amando, mas não me desespero se disse ou fiz algo que possivelmente ele não gostou, afinal ele também às vezes diz ou faz coisas que não me agradam, sou segura o suficiente para saber que esses entraves fazem parte da relação.
Estou em liberdade condicional, após anos na prisão. Fui prisioneira das ideias imutáveis, das certezas eternas, da culpa, do medo, da cobrança exagerada, da perfeição, da mordaça que calava minha voz e me impedia até de escrever meus versos.
Uma coisa descobri: eu mesma tinha a chave da minha cela. Tive coragem de abrir a fechadura e me conhecer de fato. Confesso que gosto mais de mim agora.