quinta-feira, 2 de setembro de 2010

UM AMOR EM TRÊS CAPÍTULOS - Vida 2

VIDA 2:





O ano agora é 1955, ele, Pedro, um rapaz de posses, moreno, alto, bonito, com sérios problemas com o pai, que o obrigou a escolher a profissão de advogado, dizendo que não pagaria faculdade para o filho ser médico de cachorro. Ela, Cecília, uma jovem bonita, alta, magra, pele branca, olhos e cabelos castanhos, filha de um casal em crise, o pai alcólatra e a mãe desequilibrada.

Ele namorava a amiga dela e ela o amigo dele, às vezes se encontravam, mas eram apenas conhecidos. Os namoros terminaram e num baile no clube da cidade, ele a tirou  para dançar. Ela recusou, dizendo que a música era agitada demais, ele a desafiou, dizendo que ela era muito certinha e que já chegara a hora de se desligar de vez do ex-namorado. O que ele não sabia é que ela não gostava de ser desafiada, então aceitou dançar com ele e, depois daquela noite foram muitos bailes juntos.

Engraçado que logo depois, ela fugiu dele na praça onde os jovens se reuniam naquela época. Falara para as amigas que não gostara de tê-lo beijado  no baile, mas ele a encontrou e convenceu-lhe a dar outros beijos e, foram muitos beijos soltos, sem compromisso. Quando se encontravam o coração dos dois batia tão acelerado, quando ele a erguia em seus braços, os lábios se encontravam, o baton vermelho borrava as bocas, os risos eram tão simples.

Assim ficaram durante muito tempo, até que um dia Cecília, disse que queria namorar, senão, não ficariam mais aos beijos. Foi decisivo para ele, dançaram a noite toda, extremamente encantados e no intervalo, ela cantou uma música olhando nos olhos dele, todos em volta notaram. Assim era ela, transparente naquilo que sentia, quando feliz ou triste, zangada ou calma, satisfeita ou irritada, tudo saltava-lhe os olhos. Ele o inverso, sempre sombrio, distante, calado, era com muita dificuldade que ela o fazia falar de seus sentimentos.

Terminaram muitas vezes e muitas vezes reataram, sempre porque ele tinha bebido demais, esquecido algum encontro ou brigavam sem motivo mesmo. Ele sempre a procurava e pedia desculpas, os amigos intervinham dizendo o quanto ele estava arrasado. Uma vez num Carnaval, ela conheceu outro rapaz, brincaram todos os dias juntos, e ele na frente ameaçando arrumar uma confusão. Depois no penúltimo dia, ele também namorou outra moça.  Ficaram um de frente para o outro. No dia seguinte, o inesperado aconteceu, no final do baile, quando a banda saiu pela rua para finalizar o Carnaval, os dois se olharam e aos beijos reataram mais uma vez.

Era assim que a paixão acontecia para eles, sempre repleta de desassossego e confusões. Um dia chegou bêbado na missa pelo um ano de falecimento de um parente dela, estava cambaleando, ela o tirou de dentro da igreja e ele disse coisas horríveis. Assim terminaram, dessa vez por muito tempo.

Estavam um ano separados, quando num baile ele se aproximou, a tomou em seus braços e disse que precisava dela mais do que qualquer coisa, ela o abraçou e disse que aquilo era paixão. Foi uma noite linda, de muitos beijos e confissões apaixonadas. No dia seguinte a revelação: ele tinha uma namorada!

Ela jamais o perdoou, nunca sequer olhou novamente para ele, seu nome era proibido e numa tarde de verão, chegou o convite do enlace dele com aquela moça, quatro anos  depois. Ela achou que isso não havia lhe atingido e simplesmente esqueceu.

Teve alguns namorados, escolheu um deles para entregar sua virgindade, para aquela época muito importante, vários anos mais tarde, teve muito prazer, quis entregar a alma, mas não foi amor. Costumava dizer que, nessa vida teve amor sem sexo e sexo sem amor, e que imaginava como teria sido ter ambos. Era feliz, bem-humorada, inteligente e muito sagaz. Viveu cercada de amigos, festejava qualquer coisa, fez muitas viagens e nunca parou de buscar o amor.  Quando morreu, deixou uma lembrança boa  naqueles que conviveram com ela.

Ele viveu uma vida sisuda, tornou-se tudo o que não era, ou pelo menos o que não queria ser. Sempre acompanhado apenas pela família, teve poucos amigos, não frequentava festas e pouco sorria. Muitas vezes quando ouvia uma música, ou lia um livro, ou mesmo quando olhava para o céu numa noite de muitas estrelas, lembrava-se dela, e pensava no quanto poderia ter sido diferente. Partiu da vida como viveu, em silêncio.

Morreram ambos no ano de 1985. Não se sabe se foi amor, mas durante muito tempo um passeou no pensamento do outro, como uma velha lembrança boa, sempre com a indagação de como poderia ter sido, mas simplesmente não aconteceu.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

UM AMOR EM TRÊS CAPÍTULOS - Vida 1

VIDA 1:



O ano de 1896 iniciara-se, o mundo ainda não sabia que migrava para a agitação do século XX. Ela, Maria Cândida, uma mulher a frente de seu tempo, bonita, elegante, filha bastarda de um aristocrata, adotada desde cedo pela madrasta, tirada de sua mãe, a quem nunca conheceu de fato. Rebelara-se e impunha sua forma expressiva de agir, que por vezes constrangia a família, discussões febris com os pais e irmãos eram uma constância em seu cotidiano. Ele, Afonso, um rapaz de origem humilde, estudou com auxílio de bolsas e ainda buscava reconhecimento na profissão que escolhera, médico, quando a Medicina dava seus primeiros passos.

Conheceram-se num baile elegante, na virada do ano, ela chamava a atenção em seu vestido vermelho. Era tão diferente das moças habituais, bebia champagne rodeada de rapazes que lhe satisfaziam as vontades. Ele aproximou-se e seus olhos jamais esqueceram o brilho do olhar que o enfeitiçou naquele momento. Ela rindo notou sua presença, por um pequenino instante seu olhar foi dele apenas. Depois voltou às risadas e a bebida, mas ele tomou coragem e a convidou para dançar. Não esperava, mas ela aceitou seu convite. Seus corpos flutuavam ao som da música e trocaram informações úteis, que o permitiram reencontrá-la.

Dias se passaram até que ele a convidasse para um café na Confeitaria Colombo, típico local onde a elite se encontrava, para o aconchego do cair da tarde. Conversaram animadamente, ela era tão crítica, falava sobre si e tinha opinião formada sobre tudo. Novos encontros aconteceram e um dia ela perguntou quando ele a levaria à sua casa, para que pudesse olhar os livros dos quais sempre comentavam.

O que aconteceu naquele dia, foi para ele o momento perfeito. O ambiente era sóbrio, o quarto era conjugado com a sala, uma cama, uma escrivaninha repleta de livros, uma cadeira ao fundo e as cortinas encobriam os últimos raios de Sol. Ela aproximou-se e um beijo sem pudor iniciou a cena de roupas retiradas às pressas, do toque suave dos seios no peito nu, as mãos percorrendo cada parte dos corpos, e a entrega da virgindade deixada nas marcas vermelhas do lençol.

Muitos encontros aconteceram até o momento em que ela no mesmo quarto, na mesma cama, depois de todo prazer que desfrutaram comunicou-lhe o noivado com um rapaz que conhecera antes dele e que estava em outro país terminando os estudos. O choque foi fatal, uma discussão intensa sobre motivos e apelações insanas, encerraram o caso para ela, mas que para ele era bem mais que isso, era amor.

O casamento aconteceu no ano de 1896, no mês de maio e reuniu a mais alta sociedade local. O primeiro dos desastres amorosos, o caso descoberto por ela, já acontecia há dois anos, ele mantinha uma amante desde antes do enlace e assim o casamento acabou.

Casou-se mais duas vezes, e sempre o mesmo final trágico. O último relacionamento findou quando ela tinha 35 anos, o que para a época já era idade de senhora, e a moça, a amante, tinha apenas 18 anos e estava grávida, foi uma tragédia, para uma mulher que tantas vezes tentara engravidar sem sucesso. O fracasso havia se estampado em sua face, deprimida, seis meses depois perdera o pai.

Ele levava uma vida plena, médico sanitarista, no início do século, tantas obrigações e as mazelas humanas saltitavam a sua volta. Clinicava em tantos lugares, e seu trabalho era sua vida. O Dr. Afonso era excepcional e todos sempre se perguntavam o porquê dele nunca ter se casado. Ele sabiamente respondia que o trabalho o absorvera tanto que não havia sobrado tempo.

Ficou perplexo, quando soube que Maria Cândida se despedira da vida, no dia em que completou 36 anos, com um veneno tomado numa linda taça. Mesmo assim aquele amor nunca se dissipou e ele quando faleceu aos 65 anos, ainda guardava na escrivaninha antiga, uma foto envelhecida dos dois amantes, numa tarde de fim de verão, foi sua última visão antes de cair no sono profundo da morte.

sábado, 28 de agosto de 2010

BELEZA


Olho meu corpo no espelho:
O tom alvo da minha pele
O castanho dos meus olhos
Combinando com meus cabelos
As curvas equilibradas
Num conjunto de delicadeza. 
O que é a beleza?
A elegância da forma
Ou a expressão da alma?
O belo contorno do que dizemos
Ou o perfume que desprendemos?
Talvez a beleza
Seja apenas quimera,
Porque perfeição completa
É busca vazia,
Sou imperfeita
E feita de mistério
Talvez desvendar-me
Seja o que há de mais belo...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

RAPIDINHAS


- Cumadre, ocê tem visto os pulíticos por aqui di novo?
- É mermo, que eles tão querendo?
- Nosso voto, cumadre!
- Ah, aquele moço teve aqui da última veis, prometeu borsa-família, anotou tudim, mas nois recebemos nadinha!
- Sabe cumadre, esse é aquele que pegava o dinheiro da borsa pra ele!
- Mas como é que é? Se ele robava, como pode tá aqui pidindo voto de novo?
- É que pulítico tem imunidade!
- Que isso cumadre?
- É fácil, eu explico. Nois se roubar, vai tudo pra cadeia, né?
- É sim. Meu cunhado roubou uma galinha e tá preso mais de ano. Num tem adevogado!
- Mas os pulítico nem precisa de devogado! Eles faiz quarquer coisa e dá tudim certo!
- Eita, comadre! Vou votar neles mais não!
- Afinar dinheiro só no borso deles e no nosso só vento! Eu também vou não!



- Cumpadre, viu a nova candidata na televisão?
- Vi não! Só a merma!
- Ocê é troxa mermo! Essa é nova: roupa branca, unha pintada de bege, baton crarinho, uma belezura! Parece até um anjo, cumpadre!
- Minino, ocê que é burro! Num tá vendo que só mudaram as cores da muier!


- Que bagunça é essa na cidade, gente? Vim de longe e a Perfeitura tá fechada!
- É as eleição! Tá todo mundo em volta de um tubarão que veio de licóptero!
- Uai sô! Pra mim tubarão ficava é nu mar! kkk.....
- Cê num presta mermo, né?
- Nóis tem que fazer piada, porque se fosse pra chorar, o Brasir  tava todo dibaixo d'àgua!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

DOENÇA



Deitada na minha cama por dias, sentindo a fragilidade do meu corpo, tentando agarrar-me a certeza de que vou melhorar e que toda essa dor vai passar. Agora já não me importo com os afazeres do trabalho, e são tantos, não me incomodo com a ausência dos que deveriam me visitar, e nem sinto falta de sexo, no estado em que estou, não seria possível.

O que me incomoda realmente é estar dependente dos outros: preciso que alguém dirija meu carro até a cidade vizinha, pois o médico atende há poucos quilômetros daqui, mas meu corpo dói tanto que não me atrevo a assumir o volante; preciso que alguém me sirva água e comida, o que detesto, pois não gosto de ser um fardo para ninguém e, fora a revolta de não poder atender ao telefone, já que não estou falando.

Brava com meu estado de dependência, fazendo alusões tais como: "E se eu realmente estivesse morrendo?". Confesso, sou muito independente na vida prática, mas tão carente ao mesmo tempo. Como é possível sentir falta daquilo de que nunca tive? Estranhamente sinto falta de alguém que cuide de mim, mas sempre fui eu quem cuidei dos outros.

Acho que essa retirada estratégica imposta pelo meu corpo está me mostrando um pouco mais de mim. Meu pai dizia que eu era frágil, mas nunca acreditei muito nisso. Sempre fui obrigada a tomar conta de mim mesma e ainda me preocupar com minha irmã caçula. E quando ele morreu então, ficou tudo ainda mais pesado. Fingi ter a firmeza que todos aguardavam e construí um forte onde eu dava as coordenadas. Acho que me perdi nesse perfil.

As pessoas desde muito cedo achavam que eu era muito madura para minha idade: "Tão responsável, essa menina!". Acabei assumindo isso de verdade e não tive tempo de crescer de fato, tamanha minha responsabilidade comigo e com tudo mais. Como nenhum adulto notou o quanto isso era um fardo que eu carregava resignada? Só agora entendo a  tamanha  raiva que contive.

Que coisa! Ninguém percebeu em toda minha vida o quanto eu precisava de muito mais que elogios tolos, eu necessitava mesmo é de colo. Não sou nada perfeita e nem tenho essa pretensão; e forte, pelo amor de Deus, passo longe, sou apenas corajosa e nada mais.

Ficar sem voz me fez falar muito mais que deveria, mas com certeza encarei minhas verdades.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

BUSCA


Hoje me sinto meio triste
Talvez seja a garganta que dói
Ou o instante que não retive.
Descompassos na minha melodia
Que afligem minha alma nada vazia.
O que busco nessa vida:
Um único instante de fantasia?
A poesia louca dos amantes?
Não sei!
Apenas busco e até encontrar
Minha vida será o verbo buscar...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

INCERTO DESEJO

    

     Não nos deixe escapar o momento, aquela noite de fim de inverno. As roupas ainda pesadas, a nossa conversa apressada pelo garçon que queria encerrar sua jornada. Eu fiz menção de pedir a conta, quando lembrei que reza a boa educação que isso fique por conta do cavalheiro. Então lhe sorri e você assumiu seu posto. Subimos pelo elevador e você me tomou em seus braços e aqueles segundos passaram mais rápidos que o normal.
     No hall de entrada, você notou que a estátua no meu aparador era exatamente igual a que você tinha em seu apartamento, rimos quando constatamos nosso gosto similar. O assunto apenas aumentou a proximidade entre nossos corpos, quando você me abraçou e nossos lábios se tocaram num beijo doce,  não gentil, mas ardente.
     Suas mãos ágeis percorriam meu corpo com destreza e habilidade e senti o quão quente nossos corpos estavam. Em poucos instantes não havia certo ou errado, éramos apenas nós dois angustiados pelos barulhos que nos faziam voltar à consciência de que não estávamos sozinhos e que poderíamos ser surpreendidos a qualquer momento. Tudo isso só aumentava  o desejo que contínhamos. Eu também o tocava com pouco pudor e meu corpo ansiava pelo seu.
     Precisávamos nos conter e fui à cozinha pegar um vinho. Dessa vez, não ousei abri-lo, foi você que o fez e apreciamos o néctar doce que acalmou nossas almas. Juntos, aninhados um no outro, já era alta madrugada e, nossa conversa fluía sem pressa.
     Adorei alisar os seus cabelos macios, quando você reclamou do corte exagerado realizado.  Dessa vez foi eu que procurei sua boca e mais uma vez encantei-me quando você disse como meu beijo era gostoso e despudorado.
     Você me desafiou dizendo que sem o salto era mais baixa que esperava e eu repliquei lembrando que  você era bastante alto como um jogador de basquete, mas lembrei-me que o tornozelo quebrado e os dedos tortos de suas mãos eram herança dos seus tempos de goleiro.
     Nossa noite findou quando ao despedir-se ousou perguntar qual botão deveria apertar no elevador, eu muito complacente decidi acompanhá-lo para que não se perdesse. Nossos abraços e beijos incendiaraam o elevador e foi com grande surpresa que ao parar, não estávamos no saguão, mas sim na garagem do prédio.
    Rimos mais um pouco  e aí sim te levei até a saída. Em nossos corpos ficou o gosto do que ainda não provamos e em nossa alma a incerteza de um próximo encontro.